‘Kamara’ e ‘Mãe da Mata’: toadas do Boi Garantido inspiram nomes de novas espécies de gafanhoto descobertas por pesquisadora no Amazonas

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Fotos: Nereston Camargo e Larissa Lima de Queiroz

Duas toadas marcantes do Boi-Bumbá Garantido passaram a fazer parte da nomenclatura científica de novas espécies de gafanhotos descobertas na Amazônia. As músicas “Kamara” e “Mãe da Mata” inspiraram os nomes de duas espécies identificadas por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em estudo publicado no dia 24 de julho na revista científica internacional Zootaxa.

A pesquisa descreve nove novas espécies de gafanhotos e quatro novos gêneros, sendo que oito das espécies foram encontradas na Amazônia brasileira. Entre elas, destacam-se Kamara kratxatxa e Proscopia caacy, batizadas em homenagem ao Festival Folclórico de Parintins e à cultura amazônica.

A espécie Kamara kratxatxa, cujo nome significa “gafanhoto-onça”, foi inspirada na toada “Kamara”, apresentada pelo Boi Garantido em 2026. A criação do nome contou com a colaboração de João Kamarayano, da etnia Hixkaryana, incorporando elementos da língua indígena à classificação científica.

Já a espécie Proscopia caacy recebeu o nome em referência à toada “Mãe da Mata”, lançada pelo Garantido em 2011. O termo “Caacy”, de origem tupi-guarani, significa “mãe da floresta”, reforçando a valorização das línguas e dos saberes dos povos originários.

O trabalho foi desenvolvido pelos pesquisadores Larissa Lima de Queiroz e José Albertino Rafael, do Inpa, além de Raphael Aquino Heleodoro, do Museu Nacional. Segundo Larissa, a escolha dos nomes teve como objetivo aproximar a ciência da cultura amazônica.

A pesquisadora explicou que sempre desejou homenagear os povos indígenas por meio da nomenclatura científica e destacou que o Festival de Parintins desempenha um papel importante na divulgação das tradições, das etnias e das línguas da região. Torcedora do Garantido desde a infância e atualmente a única pesquisadora amazonense especializada em gafanhotos no Brasil, ela escolheu suas toadas favoritas como inspiração para as novas espécies.

O estudo teve início em 2019, durante o doutorado de Larissa, mas as expedições de campo começaram apenas em 2022, após o período de restrições provocado pela pandemia de Covid-19. Além das coletas em diferentes áreas da Amazônia, a equipe analisou exemplares preservados em coleções científicas de museus no Brasil e no exterior.

Foi justamente em um desses acervos que os pesquisadores identificaram Proscopia caacy. Os insetos haviam sido coletados em 1984, mas somente agora foi possível reconhecer que pertenciam a uma espécie até então desconhecida pela ciência.

O trabalho de campo também exigiu meses de dedicação. Um dos novos gêneros recebeu o nome Celatus, palavra em latim que significa “escondido”. Os pesquisadores levaram cerca de cinco meses para localizar o primeiro macho da espécie Celatus nath, em Presidente Figueiredo, no Amazonas.

Outra descoberta foi Milenascopia uatuma, encontrada na Reserva Biológica do Uatumã. Para coletar os exemplares, a equipe percorreu áreas de floresta alagada utilizando uma lancha, alcançando gafanhotos que estavam sobre árvores parcialmente submersas.

Das nove espécies descritas, oito foram registradas na Amazônia brasileira. Elas são Celatus nath, em Presidente Figueiredo (AM); Kamara kratxatxa, em Rio Branco (AC); Lianascopia albae, em Tiquié (AM); Lianascopia domenicoi, em Amajari (RR); Milenascopia uatuma, em Presidente Figueiredo (AM); Proscopia caacy, na Serra Norte (PA); Pseudoproscopia taka, em Itaituba (PA); e Pseudoproscopia trajakan, em Manicoré (AM).

Além das novas espécies, os pesquisadores descreveram quatro novos gêneros de gafanhotos. Para Larissa Lima de Queiroz, a identificação de um novo gênero representa um avanço ainda mais significativo para a ciência, pois demonstra que a biodiversidade amazônica ainda guarda grupos inteiros de organismos desconhecidos.

A pesquisadora afirma que espera que o estudo contribua para ampliar o conhecimento sobre a fauna da Amazônia e fortalecer a valorização da cultura da região. Segundo ela, eternizar referências ao Festival de Parintins e aos povos originários na ciência é uma forma de mostrar a riqueza biológica e cultural da Amazônia ao Brasil e ao mundo.

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